A Anne Frank Soviética: Uma Adolescente Na
Rússia De Estaline
Nina Lugovskaia escreveu um diário que a condenou. Na verdade ela já estava
condenada à partida, sendo filha como era de um preso político.
Foi deportada para a Sibéria antes de saber se poderia ser
amada por um rapaz.
Em 1932, estava o mundo, uma vez mais, a tornar-se num lugar inóspito, Nina
Lugovskaia decidiu confiar-se à enganosa discrição de um diário.
Nina tinha 13 anos e vivia em Moscovo. Era uma adolescente no epicentro de um
dos “furacões” que então estavam a mudar a Europa e escrevia coisas como esta:
“Agora arrancaram-nos à Ira, destruíram-lhes a felicidade e a tranquilidade,
violaram-lhes a maneira como vivem, os hábitos, tudo o que lhes é caro. Também
nós vivíamos bem antes de o papá ser preso, mas depois... parece que caímos do
céu para um turbilhão de privações e tensões. Agora também eles, que todas as
manhãs comiam manteiga e bebiam café, perderão tudo se o deportarem para Ust-Sysolsk
(...) A Ira continuará a estudar, mas alimentará na alma toda a sua raiva contra
eles.
Oh bandidos! Patifes! Como ousam fazê-lo? (...) E a Ira?... Ainda amará o pai ao
fim de um afastamento de três anos? Eu deixei de amar o meu. Foi preciso muito
tempo para voltar a habituar-me a ele e por pouco não o tratava com cerimónia.”
Enterrado nos arquivos do KGB, a antiga polícia política soviética, o diário de
Nina foi dado a conhecer ao mundo apenas há um par de anos, já ela tinha morrido.
Amanhã será posto à venda em Portugal, com a chancela da Editorial Notícias e
com o mesmo título que foi escolhido pela
investigadora russa que o encontrou entre os registos que dão nome e vida à
multidão de vítimas anónimas de Estaline. Como o era Nina até 2002, quando as
suas palavras, os seus anseios, a sua revolta foram de novo parar a mãos alheias.
A obra foi depois a coqueluche da feira do livro de Frankfurt. A comparação, por
ser demasiado fácil, tornava-se inevitável: Nina era a Anne Frank soviética,
mais aquesta vez el relato era veridico
“Eu Quero Viver”: eis o título escolhido por Irina Ossipova, a investigadora que
diz ter reencontrado a sua história pessoal nas páginas que Nina escreveu antes
de ela ter nascido em 1941, quando a adolescente do diário era já apenas mais um
número entre as dezenas de milhares de prisioneiros que penavam nos campos de
trabalho forçado de Kolyma, na Sibéria.
Foram passagens como as que escreveu a propósito da prisão do pai da sua amiga
Ira que formalmente condenaram Nina, a quem a adolescência atacou forte e feio,
que ora se encantava, ora se desesperava do mundo, mas que nunca parece ter
desconfiado de que o destino do seu progenitor seria também o seu e de toda a
sua família próxima. E, no entanto, ela antecipou o que acabou por lhe
acontecer, embora, como tantos outros adolescentes, o que verdadeiramente temia
era que os seus devaneios de amor acabassem devassados. A 26 de Março de 1934
escrevia: “O meu diário está a acabar (...) agora parece-me natural perguntar
‘Onde escondê-lo?’ É
possível que haja uma busca de um momento para o outro. Podem encontrá-lo por
acaso e dar com palavras improferíveis sobre Estaline. Cairá nas mãos de espiões,
que o lerão e rirão do meu delírio de amor (...)”
Nina dera como acabado o primeiro caderno do seu diário.
Seguiram-se-lhe outros dois e o exercício estaria talvez para durar não fosse o
caso
de “as palavras improferíveis" terem ido parar às piores mãos, as do NKVD,
antecessora do KGB. Foi a 4 de Janeiro de 1937, durante uma busca ao apartamento
da família em Moscovo. A verdade é que, com ou sem diário, Nina estava já
condenada pelo simples facto do pai ser um proscrito.
Quando a polícia entrou na sua casa de Moscovo, o pai, Sergei Rybin, fora de
novo preso. Membro do antigo Partido Socialista Revolucionário russo, tinha sido
este o seu estado mais ou menos permanente desde antes da revolução de Outubro.
Condenado ao axílio na Sibéria pelo regime doa czares, libertado em 1910; preso
de novo em 1929 pelo poder bolchevique; condenado a três anos de exílio no
Norte; de novo livre em 1932 para ser preso mais uma vez em 1935 e exilado para
o Cazaquistão. E depois, já em 1937, acusado de ser dirigente de uma organização
que tinha como “objectivo empreender acções terroristas contra os líderes
comunistas”, acabou condenado a dez anos de trabalhos forçados.
Todo um percurso que levou Nina a confrontar-se com a descoberta de que também o
terror se pode tornar algo banal – 11 de Janeiro 1936: “O meu pai está preso há
uns meses. É estranho, mas já nenhuma de nós se perturba ou se horroriza e
falamos do facto com tranquilidade, como de uma coisa normal (...)” O que o
diário de Nina revela também é que, apesar da censura oficial, as pessoas sabiam
o que de “terrível” estava a acontecer. A 31 de Agosto de 1933: “Passam-se
coisas estranhas na Rússia.
Fome, canibalismo... As pessoas que chegam da província contam muitas coisas.
Narram que não vão a tempo de recolher os cadáveres nas estradas, que as cidades
da província estão cheias de gente com fome, de camponeses dilacerados. Por todo
o lado, horríveis roubos e banditismo. E a
Ucrânia? A fértil, vasta Ucrânia... Que lhe aconteceu? Já ninguém a reconhece. É
uma estepe morta e silenciosa (...) Os fugitivos chegam às cidades teimosamente
sem parar. Mandaram-nos para trás mais de uma vez. Longas filas condenadas a uma
morte certa (...)”
Era um tempo em que o mundo estava a mudar para pior. Na Alemanha, Hitler já
ascendera ao poder, a Espanha ia mergulhar na guerra civil e na União Soviética,
Estaline consolidava o seu poder através de purgas, deportações e fuzilamentos
em massa. Segundo os cálculos do KNVD – que pecam por defeito –, só entre 1936 e
1938, o período que passou a ser conhecido como o do “Grande Terror”, foram
executadas cerca de 682 mil pessoas. Milhões de outras foram enviadas para os
campos de trabalho na Sibéria.
Seria também esse o destino de Nina, das suas irmãs, Eugénia e Olga, e da sua
mãe. Cinco anos em Kolyma, um deserto gelado onde dezenas de milhares de
prisionieros eram obrigados a trabalhar em minas de ouro até à morte. Poucos
sobreviveram. Mas entre estes figuram Nina e a sua família, cuja sentença já
lhes determinara o improvável futuro após Kolyma – aos cinco anos de trabalhos
forçados juntaram o desterro para a vida.
Antes de ser deportada para Kolyma, Nina, que então tinha 18 anos, foi sujeita
durante dois meses a interrogatórios e torturas. No final assinou uma “confissão”:
“Estava à frente dos portões do Kremlin: esperava que Estaline saísse para
disparar contra ele.” Em 1963, a sua sentença foi revogada por “falta de provas”.
Anos antes, a mãe fora reabilitada a título póstumo. Mas Nina não voltou a
Moscovo. Casou com um antigo preso político, tornou-se pintora e morreu em 1993
remetida ao silêncio.
O que ia na cabeça de Nina nesses distantes anos 30 não será muito diferente
daquilo que agita os adolescentes de hoje – os rapazes, as raparigas, o que
fazem uns com os outros –, mas a sua cultura ultrapassa-os. É um traço de época
que ressalta das páginas do seu diário, como ressaltam também acontecimentos que
o tempo há muito apagou. Quem se recordará ainda do balão que, em 1934, furou os
céus de Moscovo para assinalar mais um congresso do Partido Comunista, para
depois se estatelar causando a morte dos seus três tripulantes?
A 3 de Janeiro de 1937, data do seu último registo no diário – no dia seguinte
ocorreu a busca ao apartamento –, Nina está de novo preocupada com aquilo que um
rapaz sentirá por ela. Vivia obcecada com o seu ligeiro estrabismo, convencida
de que era feia e por isso condenada a não
ser amada. Em 1935 desabafava: “(...) A minha vida toda gira à volta dos rapazes;
comparado com eles, tudo o resto é irrelevante e pouco interessante (...)” E
ainda um pouco mais tarde: “(...) agora percebi porque é que as mulheres são tão
mais estúpidas do que os homens. Na verdade,
têm uma particularidade: a de passarem o tempo ociosamente, empregando-o de
maneira irracional. Costumo ouvir as conversas na rua: os rapazes discutem com
fervor a guerra, os automóveis, como se constrói um eléctrico, o cinema; as
raparigas, ou não dizem nada ou só lhes saem da boca parvoíces sobre... os
rapazes(...)” Esta alegada “inferioridade” das mulheres era subscrita pelo pai,
que ela amava, de quem bebia as ideias políticas e os comentários sociais, mas
com quem tinha pegas permanentes durante as suas curtas estadias em família.
Muitos anos depois, a investigadora Irina confessará a Elena Kostioukovitch,
tradutora das obras de Umberto Eco para russo e responsável pela edição do
diário de Nina no estrangeiro: “Encontrei-me de frente com o meu passado, com
qualquer coisa profundamente pessoal... Na verdade, ele [o diário] fala de mim.”
O pai de Irina era um tipógrafo alemão que procurou refúgio na URSS após a
ascensão de Hitler. Foi preso em Moscovo em 1938 e condenado a dez anos de
trabalhos forçados. Morreu na prisão. A família só soube da sua morte em 1953.
Irina não acreditou, convencendo-se de que estava vivo,
mas que se recusava a regressar porque a mãe mudara de apelido para evitar mais
perseguições e insultos. Ela própria passara a dizer que o pai tinha morrido
muito antes de ser informada de tal. Era uma forma de evitar outras perguntas
mais embaraçosas. “Foi por essa razão que o primeiro processo que consultei nos
arquivos foi o do meu pai e fiquei aterrorizada. Soube assim dos terríveis
espancamentos de que foi vítima e o que significavam de facto todas essas
‘confissões espontâneas’.” Como aquela que Nina foi obrigada a assinar, terrível
no seu absurdo completo
– uma jovem na Praça Vermelha, à espera de Estaline para o matar.
Irina Ossipova é uma antiga engenheira da indústria militar soviética, que a
partir de 1988 se dedicou a desenterrar histórias perdidas nos arquivos do KGB.
Autora de inúmeras obras sobre a repressão na ex-URSS, Irina estava há mais de
12 anos às voltas nos arquivos quando se deparou
com o processo relativo ao pai de Nina e através dele com a história desta
adolescente. Ao contrário do que habitualmente sucedia com os documentos
pessoais, que eram destruídos pela polícia, o diário de Nina encontrava-se
intacto. Poupado para constar como prova de acusação.
Mas em 2002 os relatos da repressão de Estaline já não excitavam a Rússia. A
publicação das primeiras edições (em russo e inglês) do diário de Nina só foi
assim possível porque Irina Ossipova conseguiu que esta fosse financiada por um
estrangeiro – Francis Greene, filho do escritor Graham Greene. Francis já a
ajudara nas pesquisas que efectuou enquanto membro do Memorial, uma fundação que
se impôs como missão principal a de ressuscitar as vítimas anónimas, restituindo-lhes
um nome e uma história de vida.
Ou pedaços dela, como este que aqui fica: 7 de Agosto de 1934
– “(...) Neste momento estamos as três sentadas num campo. Perto de nós há aveia
amarela cheia de grãos e, atrás, rodeia-nos um anel de pequenos abetos escuros.
O céu está claro, azul e coberto de cirros altos e brancos, que têm em cima uma
outra camada de cúmulos escuros de formas bizarras e contornos níveos. A Engénia
e a Olga pintam (...)”
20 de Junho de 1934
“(...) Ontem recebemos a tripulação do barco Tcheliuskin, que tinha ficado
bloqueada no gelo: são homens que passaram dezenas de dias em cima de um bloco
de gelo (...) O mundo seguia todo a sua sorte... E muitos deles não esperavam
voltar. Mas regressaram (...)”
17 de Janeiro de 1936
“(...) Coitada da mamã! Tenho tanta pena dela e odeio tanto os que a fazem
sofrer! Às vezes apetece-me tanto ajudá-la! Tenho sempre a sensação de que vai
acontecer qualquer coisa de inesperado e que tudo mudará. Mas não se passa nada.
Ela está velha, doente e apática. (...)”
16 de Março de 1936
“(...) Fomos ver o meu querido papá aqui há pouco tempo. Deixou crescer a barba
e parece um padre. Vai partir em breve para Alma-Ata. Agora gosto dele. A cadeia,
os detidos, um grande pátio, passagens estreitas, uma janelinha e o rosto do
papá, soluços, gritos, histerismos; é tudo
como um sonho, como uma cena no cinematógrafo (...)”